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corpo sonoro

Nas trajetórias que tenho seguido as sonoridades sempre estiveram presentes, inicialmente de um modo muito vinculado à passagem do tempo e ambiência para imergir; as texturas sonoras das performances eram guias do transe. Nesse momento a composição do som era pensada enquanto colagem, narrativa de contextos políticos vividos a partir de 2013 e registro de oralituras ancestrais coletadas entre minhes familiares.

Durante esse período, concomitante com o mestrado e doutorado, fui mais fundo na questão da palavra e da linguagem e passei a fazer votos de silêncio onde passava vários dias sem emitir sons vocais. A partir daí as palavras começaram a virar sopro na boca esses sons do invisível passaram requisitar também ser corpo e vieram os falatórios onde a boca é uma fonte de jorrar palavras (como nos trabalhos “Transcrições Consanguíneas”, “Sob o Sol das Cabras” e “Versicolor”) e muito instigado pela poesia dos Racionais MC’s, grupo que acompanho desde criança.

Foi então durante o período de gestação de minhe filhe Txai que pude me recolher de uma maneira a habitar esse corpo sonoro líquido, movendo-se lento, silencioso e habitando uma ilha, morando ao lado de uma fonte de água (Fonte do Ribeirão). A partir daí mergulhei de vez no ambiente sonoro buscando um processo de corporificação, incorporação e aparição sonora através de emanações aquáticas, frequencias, captação de sons mínimos, repetição, delay, tentativas de transcrição e transcriação de uma experiência, um estado de mutação, ruídos e obscuridades reveladas por ambientes amnióticos, meios líquidos. Nesse meio a dissolução da ideia de um corpo humano e corpo indivíduo inventado pela branquitude. Essa necessidade também veio por uma certa saturação da imagem, eu não queria mais ser visto. Venho então desde 2016 pesquisando e produzindo dentro desta perspectiva, sendo o trabalho “Rebentações” (movimentos 1, 2 e 3) (2018/2019) a primeira aparição sonora pensada como tal, feita depois de um período longo de construção.

Tenho também gerado uma série de instrumentos artesanais com materiais orgânicos, molas, ferros, cordas, gambiarras, e mais recentemente, sintetizadores analógicos, os quais tenho usado para as produções atuais. Durante a pandemia construí um kamale ngoni que tem sido grande mestre de travessia e um pequeno sintetizador de onda quadrada que disparou outras encruzilhadas de pesquisa. Essas feituras tem sido fundamentais para pensar na construção do corpo sonoro e também como algo emancipatório também pois me dá autonomia sobre como produzo o som desde sua materialidade e fluxos de energia. Também percebo que ao faze-los estou confeccionando corpos que me conduzem para outros fluxos comunicacionais. Aqui entram os irmãos: um é ferreiro e o outro dono das portas. Ao tomar em minhas mãos este fazer é um modo de fazer o feitiço completo e restituir simbolicamente aqui o que nos foi roubado pelo colônia vírus.

LLAMA
00:00 / 43:55
Para Bons Despachos
00:00 / 02:38
Quinta
00:00 / 18:31
DOMINGO
00:00 / 10:33
FINDUFUNDU
00:00 / 18:04

rebentações

precipitações

lutheria de invenção

aventuras eletrônicas

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