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Urubutsin: entidade compreendida por alguns povos indígenas da região do rio Xingu como o detentor da sabedoria do fogo, da noite e do dia. 
Essa foi a primeira vez que meu corpo foi cavalo do Urubu. Um processo ativado para digerir a morte. Durante 1 ano observei e recolhi penas dos urubus na Floresta da Tijuca (RJ). Foram meus mestres de aprender a ouvir a idade das coisas, de olhar bem de perto no fundo dos seus olhos e ver que ali onde ninguém queria enxergar era o lugar que eu habitava. Eles tem olhos de velhos. Reconhecimento entre parentes que trabalham na decomposição do mundo. Aceitei e deixei que essa força se manifestasse em meu corpo. Cem penas atravessando a pele com agulhas durante cantos de minhas ancestrais na cidade de Panelas em Pernambuco nos anos 1980. Vozes de minha avó, bisavó, tio criança e eu com 1 ano. Os perus no terreiro, o leite tirado na hora produzindo agudezas numa vasilha de alumínio, uma voz infantil que nunca conseguimos reconhecer que dizia: TAMAI (avô/avó). Ali os povos originários que me compõem se manifestavam em potência.
Sangrei um fluxo vermelho junto com o suor que lavava os corpos num dia de janeiro escaldante. Jorrar sangue vivo em vida para honrar nossos mortos. 
Foi essa minha defesa de mestrado quebrando todos os protocolos possíveis da academia: em minha casa, sem falar, em movência. O principal não é o voo, mas o pouso. 
Agradeço profundamente a todes que voaram e pousaram juntes nesse processo, sem essas pessoas não haveria aparição: Lúcia Rosa, Rita Maria, Filipe Espindola, Cíntia Guedes, Od Mello, pajé Sapain Kamayurá, Matheus Santos, Kleper Reis, Bruno F. Duarte, Bloco Livre Reciclato e Museu de Colagens Urbanas, Aldo Victorio, Mari Scarambone, Chapolim, Raphi Soifer, mais gente que a minha memória falha.

Ao povo da rua, ao povo das matas, ao povo do sertão.

(Relato sobre a primeira aparição. Após esta ainda houveram mais 5: no filme Maranhão 669 (2015), no Aldeia SESC Guajajara (2014) em SãoLuís/MA, e no SESC Ipiranga (2015). Em São Luís o trabalho contou com as interlocuções de Edson Mondego, Batman Pobre e Bruno Barata.)

A sagração de urubutsin (2013/2015)

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