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trilogia dos ares

2009 / 2010 / 2011

Esta galeria compreende as três suspensões corporais que realizei entre 2009 e 2011. Estes são alguns dos registros em palavra e imagem.

 

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"Meu Corpo É Meu Protesto" (2009)

Título inspirado no texto de Angelica Liddell "Lesiones Incompatibiles con la Vida"

Através da pele eu podia sentir que estava vivo. Depois de um processo de adoecimento pude renascer nesse plano de vôo. É que eu escutava desprezos e tinha medo do espelho. Foi assim que conheci Filipe Espindola que me botou as asas junto com Milze Kakaua. 
Agradeço ao mestre da gambiarra Otávio Donasci que me abriu as portas da sua casa e ajudou a puxar a corda que me suspendia, às amigues que estiveram presentes e todas as pessoas que ainda que apavoradas me apoiaram nessa que para mim foi uma conquista imensa: a conquista do meu próprio corpo.
Foi no meu aniversário de 23 anos.

 

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"Aurora das Máquinas Abertas" (2010) - Virada Cultural SP

Numa passagem subterrânea no centro de São Paulo (Galeria Prestes Maia), durante a alvorada alçamos esse voo triplo: Rafael Rosa, Filipe Espindola e eu. A trilha sonora foi feita ao vivo pela dupla ORBE.
Essa suspensão foi marcada por um processo de mergulho em visões propiciadas pelo ayahuasca que nos presenteou com a imagem de três gigantes: um de ossos, outro de terra e outro de plumas. Assim fizemos saias de 5m que tocavam o chão todo tempo e ficamos ali mergulhados em amarelos e âmbares. 
Sonho com o dia que amanheceremos como novos seres depois de tudo isso... 

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"Compassos do Ocaso" (2011) - Virada Cultural SP

Do dia 01 para 02 de janeiro de 2011 minha avó-mãe Rita Maria da Silva partiu. Ela era uma fortaleza para mim e vê-la adoecer logo depois que se aposentou, depois de uma vida limpando as imundices dos ricos em seus palácios, esses ricos que a sabotaram e ela não teve recompensas, décadas trabalhando sem ter a carteira assinada. Nada me tira da cabeça que minha avó morreu foi de desgosto  com pessoas que a tratavam como "da família". Alguns eram até de esquerda sabe... No dia do seu enterro, toda de branco rodeada de flores miúdas amarelas e brancas me despedi com a promessa que faria um ritual para ela.
Essa foi minha última suspensão, em homenagem à Dona Rita. Na frente da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandú, durante a transição do dia para a noite, na hora em que as almas transitam, num domingo de ramos, fizemos essa homenagem e ritual de cura para nós filhos de Rita, para selar as feridas do corpo dela transferidas para nós na forma de sequela ancestral. Foram três meses de preparamento pesquisando pigmentos e pinturas de proteção, saias e matérias de poder junto com Michelle Mattiuzzi, Renata Borges e Filipe Espindola, pedidos de permissão no terreiro, uma semana de imersão na casa de minha mãe Lúcia Roosa construindo cordéis de memória (cordas de 5m cada com objetos de nossa história familiar, amarrados nos ganchos e arrastados pela praça numa caminhada do último choro), pesquisas sonoras feitas por Pettrus Talles (meu tio e filho de Rita) e uma série de rituais na umbanda e na pajelança, convocando as memórias do sertão pernambucano de onde ela veio, nossa ancestralidade com som de carro de bois, toda essa força nos conduziu para esse lugar. 
Atotô.
Nesse dia então Michelle e Renata foram nossas guardiãs protegendo nosso caminho enquanto Filipe e eu nos colocávamos como corpos-oferenda e Pettus entoava memórias sonoras e composições para subir. Ah... a subida. O homem das palhas veio tocar alfaia para que a gente subisse e lá no alto com uma força quase violenta senti o momento exato em que o espírito de minha avó atravessou meu corpo todo. Estremeci, chorei e tive a certeza que que a marca que ela deixou em mim é indelével. No alto eu e Filipe nos encontramos num abraço de acolhimento.
Era tanta gente vendo, gentes velhas que participavam do domingo de ramos e pararam para participar do ritual. Foi bonito ver aquelas pessoas. Foi bonito ver meus familiares e amigos ali. Foi bonito poder chorar pela minha mãe Rita e saber que o luto também é luta.
Mas verdade seja dita, era uma Virada Cultural. Segundos antes de dar o primeiro passo, o produtor do palco (extinto palco das modificações corporais), me disse no ouvido: "você tem meia hora". Aquilo foi o suficiente para entender que aquele contexto não era próprio para o tipo de experiência e dedicação que temos com nosso trabalho. Nosso trabalho, nosso ebó, nossa aparição não pode ser confundida com espetáculo pois é um movimento da fé e de uma ancestralidade que a branquitude não concebe, nunca irá alcançar.
Nunca mais me suspendi e aguardo hoje o momento certo para voar longe desse olhos nocivos e bem perto do coração da mata.